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Daniele Rosa

coisas que só posso dizer no escuro

 

 

 

 

 

ou como dizer a meu pai coisas que pousam na minha língua à beira do esquecimento / ou como aquela noite em 87 quando toda a sua vida se perdeu às 3h da manhã / ou sobre como a minha vida começou do jeito mais torto e mais comum e mais recorrente nas estatísticas de abandono parental /ou sobre como todas as cartelas de remédio se parecem com você / quando tento engolir as cápsulas na esperança de parar a dor / ou quando tocam no rádio as canções que você cantava no fim da tarde acompanhado do seu violão branco / ou mas você pai não acabou não teve um fim e talvez seja justamente esse o problema você perdura / ou é como sentir minha existência sendo um crime / o meu corpo estranho atravessando o corpo do mundo a uma velocidade de 100 quilômetros por hora fazendo buracos de bala e não matando não dando fim algum num cenário onde só o fim parece possível / ou sobre o dia com os pertences todos todas as suas posses no porta-malas de um corcel II / ou minha vida atravessada por carros que não amei / carros de metal frio como pessoas / carros que peguei pelo para-choque para correr / carros que prenderam meus dedos distraídos / mas você pai / ou você pai não me escreve de lugar nenhum nem dos seus sonhos nem do seu ódio nem do seu rancor nem do seu abandono / ou o seu abandono é que não me escreve / ou eu apenas perco tempo cheia de lamentações enquanto peço mais um minuto para terminar uma frase

o fusca cinza da minha mãe que eu empurrava sozinha nas manhãs de inverno

 

 

 

 

 

a cama é quente

o ar cheira gelo

os pés descalços

é manhã cedo

os vizinhos dormem, eu não

 

coloco as mãos no capô dianteiro e o metal me desperta

toda a força do corpo nos braços e pernas até quase deitar

quantas vezes não sei

ainda tem que empurrar de novo

de volta pra garagem

em cima das pedras que doem o pé

 

depois a rua de terra

a preguiça do sapato

a sujeira do chão

 

de costas o fusca parece uma pessoa

um besouro

uma pessoa besouro

e toco seus ombros

 

empurro primeiro devagar, depois não

depois rápido até correr

até cair

até levantar

até pegar

 

e o peso que vem no corpo então

o peso do alívio de voltar pra cama toda suja e cansada

mas o alívio de ter que tentar de novo só no outro dia

ou até a próxima geada que vai congelar o álcool do tanque de combustível

ou até que chegue a primavera

mais uma vez

Anna Carolina Azevedo

Freak at Midnight

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